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Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

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Voando no Barcelona, Raphinha pode virar a página na seleção brasileira?

Há momentos em que um jogador parece simplesmente estar jogando outro esporte. Raphinha atravessa um deles. Em oito partidas pelo Barcelona na temporada 2026/27, o brasileiro marcou 14 gols e deu três assistências, assumiu a braçadeira de capitão e se tornou o principal rosto de um time que venceu todas as suas partidas até aqui. …

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Voando no Barcelona, Raphinha pode virar a página na seleção brasileira?
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Voando no Barcelona, Raphinha pode virar a página na seleção brasileira?

Há momentos em que um jogador parece simplesmente estar jogando outro esporte. Raphinha atravessa um deles. Em oito partidas pelo Barcelona na temporada 2026/27, o brasileiro marcou 14 gols e deu três assistências, assumiu a braçadeira de capitão e se tornou o principal rosto de um time que venceu todas as suas partidas até aqui.

O número de gols, por si só, já seria absurdo. O contexto transforma a marca em algo ainda maior: é o melhor início de temporada de um jogador na história do Barcelona, acima dos melhores começos de Lionel Messi, e o brasileiro já havia estabelecido um recorde ao marcar nas quatro primeiras rodadas de LaLiga.

Por isso, uma pergunta atravessa a fronteira entre Barcelona e Seleção: o jogador que parece imparável na Catalunha finalmente pode transformar esse nível em algo semelhante com a camisa do Brasil?

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Do desconhecido de Tite a titular da Copa do Mundo

Muitos esquecem que Raphinha já viveu o caminho inverso. Quando chegou à seleção brasileira como uma novidade, ganhou espaço rapidamente com Tite e, durante algum tempo, entregou pelo Brasil um futebol até mais convincente do que aquele que apresentava no Barcelona. Agora, aos 29 anos e depois de uma temporada 2024/25 que o colocou entre os melhores jogadores do mundo, ele chega ao novo ciclo de Ancelotti em um momento diferente.

A ascensão de Raphinha na Seleção foi rápida. Havia acabado de se destacar pelo Leeds, recebeu a primeira convocação em 2021 e, na estreia contra a Venezuela, deu duas assistências. Poucos dias depois, marcou duas vezes contra o Uruguai. Em menos de um ano, o atacante que ainda era uma novidade para parte da torcida havia se transformado em titular da Seleção.

O curioso é que sua Copa do Mundo não acompanhou a expectativa criada pelo ciclo. Raphinha foi titular e participou dos cinco jogos do Brasil no Qatar, mas terminou o torneio sem gol ou assistência. Mesmo sem produzir diretamente na frente, era bastante envolvido no jogo e tinha uma participação defensiva relevante.

Raphinha na Copa do Mundo de 2022 (Raphinha na Copa do Mundo de 2022 (Foto: IMAGO / Agencia-MexSport)

A imagem deixada no torneio, porém, foi de um atacante que poderia ter feito mais. Isso também ajuda a entender uma cobrança que acompanharia Raphinha nos anos seguintes: ele conquistou espaço na Seleção antes de se consolidar como um dos melhores jogadores do mundo no clube, mas ainda precisava transformar essa importância em grandes atuações em partidas de maior peso. O paradoxo ficou ainda mais evidente quando sua trajetória no Barcelona começou a mudar.

Durante seus primeiros anos na Catalunha, Raphinha era um jogador importante, mas irregular. Chegou do Leeds em 2022 e terminou a primeira temporada com 10 gols e 12 assistências em todas as competições, e repetiu os 10 gols em 2023/24. Eram números bons, mas distantes do status de estrela que a contratação sugeria. Ao mesmo tempo, na Seleção, continuava recebendo confiança e tendo momentos de destaque.

A transformação definitiva aconteceria em 2024/25, quando Hansi Flick passou a explorar de maneira muito mais radical suas características. Raphinha marcou 34 gols e deu 25 assistências em 57 partidas naquela temporada, foi eleito o melhor jogador de LaLiga e terminou entre os principais candidatos à Bola de Ouro.

O atacante que durante anos era visto como um ponta talentoso, mas irregular, passou a ser tratado como uma estrela mundial.

O Raphinha do Barcelona mudou, e o Brasil nem sempre conseguiu acompanhá-lo

A transformação não foi apenas estatística. Flick deu a Raphinha uma liberdade que o brasileiro transformou em parte central de seu jogo. Em vez de permanecer preso na esquerda ou direita, ele passou a ocupar zonas interiores, atacar a área e participar da construção. A temporada 2024/25 mostrou que ele podia ser muito mais do que um ponta que recebe aberto e parte para cima do lateral.

Agora, em 2026/27, a mudança chegou a outro nível. Com a saída de Robert Lewandowski e sem a contratação de Julián Alvarez, Flick encontrou em Raphinha uma solução para o centro do ataque. O brasileiro passou a atuar como falso 9, com liberdade para sair da referência, combinar com Lamine Yamal e atacar a área de diferentes posições. A mudança deixou Raphinha ainda mais próximo das zonas em que pode decidir.

Os números são consequência dessa alteração. Raphinha soma 14 gols e três assistências em oito partidas nesta temporada, com 12 gols em sete rodadas de La Liga e outros dois na Champions. Na prática, participa diretamente de mais de dois gols por jogo. É um ritmo impossível de sustentar durante uma temporada inteira, mas também é uma demonstração suficientemente forte para mostrar que o jogador atingiu um patamar diferente.

Raphinha em jogo do BarcelonaRaphinha em jogo do Barcelona (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)

O problema para a Seleção é que ela não reproduz automaticamente o contexto do Barcelona. O Brasil não tem a mesma estrutura ofensiva, não possui Yamal, Pedri e os mecanismos de Flick ao redor de Raphinha e, principalmente, não passa necessariamente tanto tempo com a bola em zonas altas. O brasileiro pode ser colocado na mesma posição no desenho tático, mas isso não significa que receberá a mesma quantidade de situações para atacar a área ou combinar por dentro.

Foi um dos pontos levantados pelo próprio Raphinha antes da Copa de 2026. Questionado sobre a diferença entre seu desempenho no Barcelona e na Seleção, ele não negou a cobrança. “Eu já consegui entregar muito pela Seleção, sim. Obviamente que não podemos ser hipócritas e falar que foi igual ao clube”, afirmou na época.

O atacante reconhece que os contextos são diferentes, mas também entende que existe uma responsabilidade individual. E agora há um elemento novo que não existia quando ele começou a trajetória com Tite: Raphinha já sabe que consegue ser o protagonista de uma equipe de elite.

Ancelotti teve pouco tempo para descobrir seu melhor Raphinha

O período de Raphinha com Ancelotti também precisa ser analisado com alguma cautela. O italiano assumiu a Seleção em junho de 2025 e, desde o começo, demonstrou confiança no atacante. Raphinha esteve na primeira convocação e foi tratado como um dos jogadores importantes do novo trabalho.  A continuidade, entretanto, foi interrompida diversas vezes.

Raphinha perdeu a convocação de outubro de 2025 por lesão, e o próprio Ancelotti reconheceu que os problemas físicos estavam interferindo nas listas. Em março de 2026, o atacante foi novamente desconvocado depois de sofrer uma lesão muscular na parte posterior da coxa direita durante o amistoso contra a França. A CBF confirmou o problema por exames de imagem.

O problema se repetiu na própria Copa do Mundo. Raphinha sentiu a parte posterior da coxa direita contra o Haiti, precisou deixar o campo ainda no primeiro tempo e ficou fora da partida seguinte. Quando retornou, contra a Noruega, estava disponível apenas como opção de banco e Ancelotti admitiu que o jogador ainda não estava 100%. O atacante acabou não entrando em campo na eliminação brasileira nas oitavas de final.

Esse histórico muda a interpretação sobre o desempenho de Raphinha sob Ancelotti. Em cerca de um ano e meio de trabalho, dificilmente houve uma sequência longa em que treinador e jogador pudessem desenvolver juntos uma função ofensiva com o brasileiro em plena condição física.

Raphinha não perdeu espaço porque deixou de ser considerado importante. Em diferentes momentos, ele simplesmente não estava disponível ou não estava fisicamente inteiro. E isso aconteceu justamente quando o jogador passava pela maior transformação tática de sua carreira no Barcelona.

Da ‘porrada’ aos questionamentos: a relação com a torcida também mudou

Há ainda a relação de Raphinha com o torcedor brasileiro. Quando surgiu na Seleção, era uma surpresa agradável. Vinha do Leeds, não carregava o peso de outros grandes nomes e rapidamente conquistou espaço pela energia e pela personalidade. Em 2022, chegou à Copa como titular. 

Talvez nenhum episódio tenha simbolizado melhor essa relação do que a entrevista concedida a Romário antes do clássico contra a Argentina, em março de 2025. Raphinha afirmou que daria “porrada neles”, dentro e fora de campo, caso fosse necessário para defender o Brasil. A declaração ganhou enorme repercussão porque aconteceu às vésperas do confronto e acabou sendo resgatada depois que a Argentina venceu por 4 a 1.

Raphinha é titular da seleção brasileira com AncelottiRaphinha é titular da seleção brasileira com Ancelotti (Foto: Harry Langer/DeFodi Images via Imago)

O episódio é importante menos pela frase em si do que pelo que ela revelava sobre a imagem de Raphinha naquele momento. Ele queria ser um jogador identificado com a Seleção, alguém que assumisse a responsabilidade e não se escondesse. Hoje, a situação é diferente. Raphinha não precisa mais convencer ninguém de que pertence à elite.

A temporada 2024/25 já fez isso, e o começo de 2026/27 levou o argumento a um nível ainda maior. O desafio é justamente fazer com que a camisa da Seleção volte a produzir a mesma sensação. Agora, o Brasil chega ao novo ciclo depois de uma Copa decepcionante e de uma série de mudanças. Ancelotti decidiu manter Raphinha entre os pilares da equipe para os amistosos contra Austrália e Índia, mesmo iniciando uma reformulação do elenco e dando espaço a nove jogadores que não haviam sido convocados para o Mundial.

O italiano continua enxergando o atacante como uma peça importante para a reconstrução. E há uma oportunidade adicional: o Brasil não precisa transformar Raphinha em uma cópia do jogador do Barcelona. Precisa apenas entender quais características daquele Raphinha podem ser transportadas para a Seleção.

FONTE/CRÉDITOS: Guilherme Ramos
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