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Domingo, 04 de Outubro de 2026

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Barcelona, Ajax, Real Madrid…: Como diferentes gigantes europeus aproveitam suas bases

A formação de jogadores deixou há muito tempo de ser apenas uma etapa de preparação para o time profissional. Nos grandes clubes europeus, a base pode cumprir funções muito diferentes: alimentar o elenco principal, preservar uma identidade de jogo, gerar ativos para o mercado ou até ajudar a equilibrar as contas. A diferença entre esses …

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Barcelona, Ajax, Real Madrid…: Como diferentes gigantes europeus aproveitam suas bases
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Barcelona, Ajax, Real Madrid…: Como diferentes gigantes europeus aproveitam suas bases

A formação de jogadores deixou há muito tempo de ser apenas uma etapa de preparação para o time profissional. Nos grandes clubes europeus, a base pode cumprir funções muito diferentes: alimentar o elenco principal, preservar uma identidade de jogo, gerar ativos para o mercado ou até ajudar a equilibrar as contas.

A diferença entre esses objetivos explica por que Real Madrid, Manchester City, Chelsea, Barcelona, Benfica e Ajax, apesar de investirem em estruturas de formação de alto nível, não utilizam suas academias da mesma maneira. Os números mais recentes do CIES Football Observatory — publicados em abril desse ano — ajudam a dimensionar esse cenário.

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Considerando as receitas obtidas com jogadores formados nas próprias academias nos últimos dez anos, o Benfica lidera o ranking mundial, com 589 milhões de euros, seguido pelo Ajax, com 454 milhões, e pelo Chelsea, com 442 milhões. O Manchester City aparece na sexta posição, com 404 milhões, enquanto o Real Madrid (sétimo) soma 395 milhões. O levantamento considera como clube formador aquele em que o jogador passou pelo menos três temporadas entre os 15 e os 21 anos.

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A ordem é reveladora porque desmonta uma impressão comum. Os clubes mais ricos não necessariamente são aqueles que mais dependem de seus jogadores formados em casa, nem os que mais dinheiro geram com eles. O que muda é a finalidade dada à formação.

Para alguns, o jovem precisa chegar ao time principal; para outros, o desenvolvimento pode ser considerado um sucesso mesmo quando o jogador deixa a instituição sem construir uma longa história com a camisa profissional. Tudo é uma questão de perspectiva.

La Masia: a formação ajuda a preservar a identidade do Barcelona

Yamal em ação pelo BarcelonaYamal em ação pelo Barcelona (Foto: Bagu Blanco / Pressinphoto / IMAGO)

O Barcelona é um dos casos em que a base está mais diretamente associada à identidade esportiva da instituição. La Masia não é tratada somente como um local para desenvolver jogadores: a estrutura também procura transmitir aos jovens uma determinada maneira de entender o futebol e a própria cultura do Barcelona. O clube define a base como um dos pilares de sua identidade e destaca a formação esportiva, pessoal e educacional dos atletas.

A influência dessa estrutura aparece quando jogadores formados no clube conseguem chegar ao time principal já familiarizados com conceitos que fazem parte da tradição culé. Xavi, Iniesta, Busquets e Messi são exemplos históricos de uma mesma lógica, enquanto Lamine Yamal, Alejandro Balde, Fermín López e Pau Cubarsí representam a continuidade desse processo em uma geração mais recente.

Isso não significa que todos os jogadores formados em La Masia precisem chegar ao Camp Nou para que a base cumpra seu papel. A diferença é que, quando um talento consegue se estabelecer no time principal, o retorno esportivo pode ser muito maior do que uma eventual transferência. O jogador passa a fazer parte da construção do próprio elenco e, ao mesmo tempo, reforça uma identidade que o clube procura preservar.

A formação do Barcelona também vai além do campo. O programa inclui acompanhamento acadêmico, pessoal e emocional, além do trabalho de formação esportiva. A ideia é criar uma continuidade entre o desenvolvimento do atleta e a cultura do clube.

Ajax: uma filosofia de jogo que começa muito antes do time principal

Revelado pelo Ajax, Frenkie de Jong foi a segunda maior venda da história do gigante neerlandêsRevelado pelo Ajax, Frenkie de Jong foi a segunda maior venda da história do gigante neerlandês (Foto: Andy Rowland / PRiME Media Images / IMAGO)

O Ajax tem uma relação igualmente forte com sua academia, mas por uma lógica que não deve ser confundida com a do Barcelona. De Toekomst (CT da base do Ajax) está ligada à maneira como o clube pretende jogar e formar seus atletas, com uma filosofia que acompanha o jogador ao longo das diferentes categorias. A influência de Johan Cruyff é uma ponte histórica importante entre as duas escolas, mas os modelos de formação não são idênticos.

No Ajax, essa padronização ganha um peso ainda maior porque a formação também é uma resposta à realidade competitiva do clube.

Sem a mesma capacidade financeira dos gigantes das cinco principais ligas europeias, desenvolver jogadores é uma forma de manter competitividade e, posteriormente, aproveitar o valor criado por esses atletas no mercado.

A academia, portanto, precisa preparar o jogador para o time principal, mas também para um futebol profissional que muitas vezes será disputado longe de Amsterdã. Matthijs de Ligt, Frenkie de Jong e outros jogadores revelados pelo clube mostram como o Ajax consegue transformar sua formação em uma plataforma para carreiras de alto nível.

O aspecto econômico é consequência direta desse processo. Como citado, o gigante holandês gerou 454 milhões de euros em receitas com transferências de jogadores formados em sua academia na última década, segundo maior valor entre todos os times analisados.

A diferença em relação ao Barcelona está justamente no peso que a venda assume dentro do modelo. Em ambos os casos existe uma forte identidade de jogo, mas o Ajax precisa conviver mais diretamente com a saída de seus principais talentos como parte natural de sua estrutura competitiva.

Benfica: a formação como parte central do modelo de negócio

João Félix foi a maior venda da história do BenficaJoão Félix foi a maior venda da história do Benfica (Foto: Rene Weiss / Eibner / IMAGO)

O Benfica se aproxima mais dessa lógica de desenvolvimento e valorização. O Seixal (base benfiquista) tornou-se uma peça importante da estratégia do clube justamente porque permite encontrar, desenvolver e preparar jogadores para o futebol profissional antes que eles atinjam o valor máximo de mercado.

João Félix é um dos exemplos mais conhecidos, mas o processo não depende de um único jogador. A base passou a funcionar como uma engrenagem que alimenta o elenco profissional e, quando o atleta não encontra espaço ou atinge um nível de valorização que desperta o interesse de grandes clubes europeus, pode gerar uma transferência capaz de financiar novas etapas do projeto.

O Benfica lidera o levantamento de receitas geradas por jogadores formados na academia na última década, com 589 milhões de euros. Dois terços desse valor foram obtidos nos últimos cinco anos do período analisado.

Nesse modelo, a saída de um atleta não necessariamente representa uma perda de planejamento. Pelo contrário: faz parte de uma cadeia em que a formação precisa continuar produzindo novos talentos enquanto os anteriores avançam para mercados mais ricos.

City e Chelsea: qualidade da base esbarra na exigência de elencos milionários

Phil Foden durante aquecimento do Manchester CityPhil Foden durante aquecimento do Manchester City (Foto: Conor Molloy / Pro Sports Images / IMAGO)

Manchester City e Chelsea apresentam outro desafio. Ambos possuem estruturas de formação capazes de produzir jogadores para o futebol de elite, mas estão inseridos em clubes que conseguem contratar atletas prontos por valores elevados. Isso cria uma barreira adicional para qualquer jovem que tente chegar ao time principal.

Phil Foden é o exemplo mais claro no Manchester City. Formado dentro do clube, conseguiu superar a concorrência e se consolidar como peça importante do elenco. Mas o caminho de Foden não é necessariamente o destino de todos os jogadores da City Football Academy. Para muitos, uma transferência pode representar justamente a oportunidade de jogar regularmente e transformar a formação recebida no clube em uma carreira profissional.

O mesmo acontece no Chelsea. Cobham revelou jogadores que chegaram ao time principal, como Reece James, mas também produziu atletas que acabaram sendo negociados. A academia, nesse contexto, precisa ser analisada junto à realidade de um plantel que disputa títulos e recebe investimentos constantes no mercado.

O dilema é simples de entender: quanto mais forte é o elenco profissional, menor tende a ser o espaço disponível para uma geração inteira de jovens. Isso não reduz necessariamente o valor da academia. Apenas faz com que o retorno possa aparecer de duas maneiras diferentes: no jogador que consegue se firmar no time principal ou naquele que deixa o clube depois de ser valorizado.

Real Madrid: o valor de formar jogadores que nem sempre vão jogar no Bernabéu

Formado no Real Madrid, Nico Paz deixou o clube merengue para fazer sucesso no Como Formado no Real Madrid, Nico Paz deixou o clube merengue para fazer sucesso no Como (Foto: eu-images / IMAGO)

O Real Madrid leva essa lógica a outro nível. La Fábrica continua produzindo jogadores em quantidade, mas o caminho até o time principal é especialmente estreito. A exigência esportiva do clube, somada à capacidade de contratar estrelas, faz com que muitos jogadores formados na base precisem construir suas carreiras em outras equipes.

Isso não diminui a importância da academia dentro do planejamento madridista. Um jogador pode não ter espaço no Bernabéu e ainda assim deixar o clube com uma formação que aumenta seu valor no mercado. Alguns constroem carreiras importantes na Espanha; outros seguem para diferentes ligas europeias. O retorno, portanto, não precisa necessariamente acontecer dentro do próprio elenco.

O Football Benchmark registrou 218 milhões de euros em receitas com transferências de jogadores formados na academia do Real Madrid entre 2019/20 e 2024/25. O valor foi o maior entre os campeões analisados no relatório, que avaliou seis campeões nacionais europeus. Na temporada 2024/25, o Real tinha 14 jogadores formados em sua academia no plantel principal.

O caso madridista mostra que uma base pode ser estratégica mesmo quando seu principal produto não termina como titular no time profissional. O clube consegue formar jogadores, ampliar suas possibilidades de carreira e, em determinados casos, transformar esse desenvolvimento em receita.

No fim, não existe só uma maneira de utilizar uma base. Barcelona aposta na integração entre formação e identidade; Ajax combina uma filosofia de jogo muito definida com a necessidade de desenvolver talentos para competir e negociar; Benfica transformou o processo em uma engrenagem esportiva e financeira; City e Chelsea precisam equilibrar formação com a concorrência de elencos milionários; e o Real Madrid convive com uma porta de entrada extremamente estreita para o time principal.

FONTE/CRÉDITOS: Guilherme Calvano
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